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Arara

Atlas, Helios e Rhea: três cafés da Mantiqueira de Minas

28.09.2026  ·  6 min de leitura  ·  Pandora Cafés Especiais

Atlas, Helios e Rhea: três cafés da Mantiqueira de Minas

Na semana passada entraram três cafés novos na loja, e os três vêm da mesma cidade: Lambari, no sul de Minas Gerais, dentro da região da Mantiqueira de Minas. Dois deles são da mesma variedade e passaram pelo mesmo processo. Mesmo assim, se você provar um depois do outro, vai jurar que são de lugares diferentes.

Esse é o assunto deste texto: o que Atlas, Helios e Rhea têm em comum, o que separa cada um, e qual deles combina com o jeito que você faz café em casa.

Mantiqueira de Minas: a serra por trás dos três

A Serra da Mantiqueira corta o sul de Minas com relevo acidentado, noites frias e cafezais plantados acima dos mil metros. É uma das regiões brasileiras com indicação geográfica para café, e não é por acaso: altitude e amplitude térmica fazem o fruto amadurecer devagar, e maturação lenta costuma significar mais açúcar e mais complexidade na xícara.

Os três lotes novos saíram de propriedades vizinhas, entre 1.100 e 1.150 metros. Dois vêm da Fazenda Esperança, do produtor Alisson Pereira, que já é conhecido de quem compra com a gente: é dele o café do nosso PAN Frutado. O terceiro vem do Sítio Raridade, de Gustavo Oliveira, vizinho da Esperança.

Trabalhar com produtores que já conhecemos tem uma vantagem prática. A gente sabe como o café dele se comporta no torrador, o que ele entrega de doçura, onde ele pode ir. Quando o Alisson mandou as amostras da safra, a decisão de trazer dois lotes dele foi rápida.

Atlas: o Arara que pesa na boca

O Atlas é um Arara natural, cultivado a 1.120 metros na Fazenda Esperança. O processo natural seca o fruto inteiro, com casca e polpa, e o grão passa semanas em contato com o açúcar da fruta. O resultado é uma bebida densa, de corpo alto.

Na xícara aparecem chocolate ao leite, um calor de especiarias e, no fundo, um toque de kiwi que impede o café de ficar pesado demais. É o tipo de café que aguenta leite sem sumir e que brilha no espresso. Se o seu dia começa na cafeteira italiana ou na máquina, é por ele que a gente começaria.

Rhea: o mesmo Arara, do outro lado do espectro

Aqui mora a parte curiosa. O Rhea também é Arara, também é natural, também é de Lambari, plantado a 1.100 metros, a poucos quilômetros do Atlas. Pela ficha técnica, seriam quase gêmeos.

Na xícara, não são. O Rhea tem corpo leve, xícara limpa e um lado floral que o Atlas nem sugere. As notas são de rapadura e chá preto, fechando com pêssego em calda. É um café delicado, que pede método filtrado e um pouco de atenção pra ser percebido.

Por que a diferença? Porque variedade e processo são só duas linhas da ficha. O solo de cada terreno, a face da montanha, o ponto de colheita, a forma de secar e o cuidado de cada produtor pesam tanto quanto. Café especial é agricultura, e duas propriedades vizinhas nunca são a mesma propriedade. Provar Atlas e Rhea lado a lado é a melhor aula sobre terroir que dá pra fazer na cozinha de casa.

Helios: 88 horas de fermentação

O terceiro lote é o mais fora da curva. O Helios é um Catucaí 2SL, também da Fazenda Esperança, a 1.150 metros. O processo é lavado, mas com uma etapa longa antes: o café fica 88 horas fermentando na lona.

Numa fermentação desse tamanho, leveduras e bactérias trabalham sobre os açúcares da mucilagem e produzem compostos aromáticos que não estariam ali num lavado comum. Feita com controle, ela intensifica o perfil de fruta sem virar vinagre. Se quiser entender melhor como cada etapa pós-colheita muda o sabor, escrevemos um guia sobre natural, lavado e fermentação.

No Helios isso virou maracujá doce e carambola, com uma acidez suculenta, tropical, e um final de nibs de cacau que dá profundidade. É o mais vibrante dos três, e o que mais divide opiniões numa mesa de prova: quem gosta de café frutado costuma se apaixonar logo no primeiro gole.

Como a gente torrou cada um

Os três estão em torra média, mas "torra média" não é uma receita única. A curva do Atlas foi pensada pra preservar o corpo e deixar o chocolate aparecer sem amargor. No Rhea o cuidado é o contrário: segurar a energia no fim da torra pra não apagar o floral e a leveza. O Helios pede atenção à acidez, que é o que faz dele um café tropical e não um café azedo.

Quem fez esse trabalho foram os sócios da Pandora, Felipe Bruzzi, mestre de torras e finalista do MasterChef Amadores 2025, e Bruno Campos. Foram algumas rodadas de amostra e prova até cada perfil chegar no ponto em que o café mostrava o que a fazenda plantou. Tudo torrado aqui no Rio de Janeiro, como contamos na página sobre a nossa torrefação.

E vale o de sempre: a gente só torra depois do seu pedido. Torramos na segunda e enviamos na quarta, então o café chega na sua casa dias depois de sair do tambor.

Qual dos três escolher

  • Atlas, se você gosta de café encorpado, com chocolate, ou faz espresso e cafeteira italiana. Tem mais dicas no nosso texto sobre café para espresso.
  • Rhea, se você prefere xícaras leves, doces e limpas, e usa coador. Uma receita simples de V60 já basta pra ele aparecer inteiro.
  • Helios, se você quer sair do óbvio e gosta de acidez de fruta tropical. Funciona muito bem no coado e em métodos de imersão.

E se a dúvida for grande, a sugestão honesta é pegar Atlas e Rhea juntos. Mesma variedade, mesmo processo, mesma cidade, e dois cafés que não se parecem em nada. Não existe jeito melhor de entender por que a origem importa.

Os três estão disponíveis em 200 g e 1 kg, em grão ou na moagem que você preferir, na nossa coleção de microlotes. Como todo microlote, existem enquanto durar o lote da safra.